16/05/10

Dizia assim a carta ..

"(...) Se eu pudesse ainda ver-te feliz neste mundo; se Deus permitisse à minha alma esta visão ! ... Feliz , tu , meu pobre condenado ! ... Sem o querer , o meu amor agora te fazia injúria , julgando-te capaz de felicidade ! (...)
A vida era bela , era , Simão , se a tivéssemos como tu ma pintavas nas tuas cartas , que li há pouco ! (...)
Eu respondia com a mudez do coração ao teu silêncio e , animada por teu sorriso , inclinava a face ao teu seio , como se fosse ao de minha mãe. Tudo isto li nas tuas cartas; (...) Era criança há três anos , Simão , e já entendia os teus anelos de glória , e imaginava-os realizados como obra minha , se me tu dizias , como disseste muitas vezes , que não serias nada sem o estímulo do meu amor. (...)
Rompe a manhã. Vou ver a minha última aurora ... a última dos meus dezoito anos !
Abençoado sejas , Simão ! Deus te proteja e te livre de uma agonia longa. Todas as minhas angústias Lhe ofereço em desconto das tuas culpas. Se algumas impaciências a justiça me condena , oferece tu a Deus , meu amigo , os teus padecimentos , para que eu seja perdoada.
Adeus ! À luz da eternidade parece-me que já te vejo , Simão !"

in , Amor de Perdição , de Camilo Castelo Branco

1 comentário:

  1. Neste momento só me vem à cabeça as aulas de literatura do 11º :') que saudades.
    Livro lindo esse, sobretudo as cartas :D

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